‘Enclausurado’, novo romance de Ian McEwan, é narrado por um feto

‘Enclausurado’, novo romance de Ian McEwan, é narrado por um feto

“Eu poderia viver recluso em uma casca de noz e me considerar rei do espaço infinito". Como Hamlet, o narrador do novo romance de Ian McEwan, “Enclausurado” (Companhia das Letras, 200 pgs. R$ 39,90) enfrenta um dilema de vida ou morte. Ele sabe que sua mãe, Trudy, planeja assassinar seu pai, John, com a cumplicidade de Claude, seu cunhado e amante, com quem ela mantém uma fogosa vida sexual.

Espécie de Lady Macbeth do século 21, Trudy planeja herdar do marido uma mansão de 7 milhões de libras e transformá-la em seu reino particular. Ela nem desconfia que o narrador ouve suas conversas e está ciente do seu plano sinistro. Pudera: o narrador ainda não nasceu, é o feto enclausurado em sua barriga. À premissa inventiva e ao parentesco com a tragédia shakespeariana soma-se o absoluto domínio narrativo de McEwan, provavelmente o melhor escritor britânico em atividade, autor do já clássico “Reparação”.

McEwan teve a ideia de dar voz a um feto quando conversava com sua nora grávida, e ele começou a especular sobre os pensamentos e expectativas daquela presença silenciosa que estava prestes a vir ao mundo.

Tendo acesso privilegiado às conversas e emoções mais íntimas e comprometedoras da mãe, o narrador de “Enclausurado” se torna uma testemunha involuntária do planejamento de um crime, enfrentando assim diversas questões éticas e existenciais antes mesmo de nascer. Ele deve tentar agir para evitar a consumação do assassinato? Mas como faria isso, em sua trágica impotência de mudar as coisas? Ele deve se vingar mais tarde da morte do seu pai? Mesmo sendo a assassina a sua própria mãe? Ser ou não ser, eis a questão.

Apesar da gravidade desses temas, a narrativa de “Enclausurado” é divertida e bem humorada (em todo caso, muito mais divertida e bem humorada que as de “Reparação” e, por exemplo, “O inocente”, que contém páginas de violência extrema). Vale ressaltar que McEwan não teve a intenção de passar qualquer mensagem relacionada ao debate sobre o aborto (até porque Trudy está no nono mês de gravidez, e esta não seria uma opção).

Presente já na primeira frase do romance – “Aqui estou eu, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher” – o humor sutil, tipicamente britânico, aparece não apenas nas percepções que o narrador tem da atividade sexual de sua mãe, como também dos efeitos do vinho que ela bebe com o amante (o feto acaba se tornando um especialista em vinhos). Numa espécie de “câmera subjetiva”, McEwan tenta – e, de certa forma absurda, consegue – passar ao leitor a experiência em primeira mão de ser um feto prestes a nascer, envolvido numa história de assassinato.